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Selantes dentários: o que são e porque o Cheque Dentista os cobre

1 de out.
5 min de leitura

Há uma pergunta que aparece com frequência nas consultas de crianças em idade escolar: se o dente ainda não tem cárie, porquê intervir? A resposta está na forma dos molares definitivos, que nascem por volta dos seis anos com uma superfície de sulcos tão estreitos que nenhuma cerda de escova lá entra.

 

O selante existe para resolver esse problema de geometria. E o facto de estar incluído no Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral diz muito sobre a relação entre o que custa aplicá-lo e o que custa tratar a cárie que ele evita.


O que são os selantes dentários


O selante dentário é um material fluido aplicado sobre a superfície mastigatória dos dentes posteriores, que preenche os sulcos e as fissuras e cria uma barreira física entre o esmalte e as bactérias. Depois de endurecer, forma uma película lisa que impede a acumulação de placa nas zonas mais profundas e inacessíveis do dente.

 

Não é uma restauração. Não se remove tecido dentário, não há broca e não é necessária anestesia. É um procedimento preventivo, aplicado num dente saudável, precisamente para que continue saudável.


Porque são os molares os dentes mais vulneráveis


A superfície de mastigação dos molares não é plana. Tem um sistema de sulcos e fissuras que, ao microscópio, se revela mais estreito do que uma única cerda de escova de dentes. Em alguns casos, a fissura é profunda e apresenta uma forma em ampulheta, com uma abertura mínima à superfície e um espaço mais largo por baixo.

 

Nessas condições, a escovagem limpa a superfície à volta e não o interior do sulco. A placa bacteriana instala-se ali e permanece, protegida da escova, da saliva e até, em boa medida, do flúor.

 

Não é por acaso que a maioria das cáries em crianças e adolescentes surge nesta superfície, e não nas faces lisas dos dentes. Os primeiros molares definitivos são, além disso, os que estão expostos há mais tempo, porque nascem por volta dos seis anos, muitas vezes sem que os pais se apercebam de que se trata de um dente definitivo, já que nasce atrás dos dentes de leite e sem que nenhum tenha caído antes.


Como é feita a aplicação


O procedimento demora poucos minutos por dente e não é doloroso. Começa com a limpeza da superfície, seguida da aplicação de um gel condicionador que torna o esmalte microscopicamente rugoso para melhorar a adesão. Depois de lavar e secar bem a zona, aplica-se o selante, que é fotopolimerizado com luz. No final, verifica-se a mordida e ajusta-se se necessário.

 

O passo mais determinante para o resultado é o isolamento. A superfície tem de estar completamente seca no momento da aplicação, o que numa criança pouco colaborante é a principal dificuldade técnica do procedimento. Quando há contaminação por saliva, a adesão fica comprometida e o selante tende a soltar-se em poucos meses.

 

Não é necessária anestesia em nenhuma fase, o que faz deste procedimento uma boa primeira experiência de tratamento para crianças ansiosas em contexto de consultório.


A que idade se aplicam


O momento indicado é logo após a erupção completa do dente, quando a superfície mastigatória já está totalmente acessível e ainda não houve tempo para se instalar cárie.

 

Na prática, isto corresponde a duas janelas principais: por volta dos seis a sete anos, para os primeiros molares definitivos, e por volta dos onze a treze anos, para os segundos molares e pré-molares. Os pré-molares e os dentes de leite com sulcos muito marcados podem também ser selados, consoante o risco individual de cárie de cada criança.

 

Selar cedo demais, com o dente ainda parcialmente coberto por gengiva, compromete o isolamento e a durabilidade. Selar tarde significa, muitas vezes, encontrar já uma lesão de cárie inicial, o que altera a abordagem.


Selantes e o Cheque Dentista


O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral, gerido pela Direção-Geral da Saúde e conhecido pelo nome do seu instrumento, o Cheque Dentista, inclui a aplicação de selantes de fissura em crianças em idade escolar, através de um cheque específico destinado a esse fim.

 

O acesso faz-se habitualmente através da escola ou do médico de família, e o cheque é utilizado num médico dentista aderente ao programa, à escolha da família, a partir da lista de profissionais convencionados.

 

A lógica de saúde pública por trás desta comparticipação é simples de perceber: o custo de aplicar um selante é uma fração do custo de tratar a cárie que ele previne, sem contar com o desconforto para a criança e com o facto de que uma restauração, uma vez feita, vai precisar de manutenção ou substituição ao longo da vida. Um dente selado a tempo pode nunca chegar a ser intervencionado.

 

As condições de elegibilidade, os escalões etários abrangidos e o número de cheques disponíveis são atualizados periodicamente, pelo que vale sempre a pena confirmar o enquadramento em vigor junto do médico de família, da escola ou do próprio médico dentista antes de assumir o que está ou não coberto.


Quanto tempo duram e que manutenção exigem


Um selante bem aplicado pode manter-se funcional durante vários anos, embora sofra desgaste natural com a mastigação e possa fraturar ou soltar-se parcialmente, sobretudo no primeiro ano.

 

Por isso a aplicação não dispensa acompanhamento. Nas consultas de rotina, o dentista verifica a integridade do selante e reaplica-o quando necessário, o que é um procedimento rápido. Um selante parcialmente perdido e não substituído pode, inclusive, criar uma zona de retenção adicional, motivo pelo qual esta verificação periódica não é um detalhe menor.


Os selantes substituem a escovagem?


Não, e é importante que isto fique claro para os pais.

 

O selante protege uma superfície específica, a face mastigatória. As faces laterais, em contacto com os dentes vizinhos, e a zona junto à gengiva continuam expostas e dependem inteiramente da escovagem e da limpeza interdentária. Uma criança com selantes e má higiene oral vai simplesmente desenvolver cárie noutras superfícies.

 

Da mesma forma, os selantes não substituem o controlo do açúcar na alimentação, sobretudo da frequência com que é consumido ao longo do dia, que é o fator com maior peso no risco de cárie. Já reunimos noutro artigo do blogue os hábitos de higiene oral infantil que fazem a diferença desde cedo.


Selantes e flúor: funções diferentes


Os dois atuam de forma complementar e não concorrente.

 

O flúor reforça o esmalte e favorece a remineralização, com maior eficácia nas superfícies lisas dos dentes, que é onde consegue chegar. O selante cria uma barreira física nas superfícies onde o flúor tem menor capacidade de atuar, precisamente por serem inacessíveis. Cobrem, por isso, riscos distintos.

 

Em crianças com risco elevado de cárie, é frequente combinar as duas abordagens: selantes nos molares e aplicação periódica de verniz de flúor em consultório. Explicámos noutro artigo do blogue o papel do flúor nos dentes, os mitos mais comuns e as quantidades adequadas por idade.


Selantes em adultos


São menos frequentes, mas existem indicações claras: adultos com sulcos profundos e ainda sem cárie, com histórico elevado de lesões, com boca seca por medicação ou com dificuldade acrescida de higiene por limitação motora.

 

A decisão depende da avaliação do risco individual e do estado da superfície do dente, e não da idade em si.


Quando marcar avaliação


Se tem um filho por volta dos seis ou sete anos, vale a pena marcar uma consulta para verificar se os primeiros molares definitivos já nasceram e se estão em condições de ser selados. É uma janela relativamente curta, e é comum passar despercebida precisamente porque não há queda de nenhum dente de leite a assinalar a erupção destes molares.

 

Numa consulta de avaliação é possível determinar o risco de cárie da criança, perceber que dentes beneficiam de selante e confirmar o enquadramento no Cheque Dentista.

 


 

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