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Gengiva retraída: o que causa e como travar a progressão

24 de set.
6 min de leitura

"Os meus dentes parecem maiores do que há uns anos." É assim que muitos pacientes descrevem a recessão gengival sem saberem o nome do que estão a descrever. O dente não cresceu. A gengiva desceu, expondo uma porção da raiz que deveria estar coberta.

 

É um processo lento, indolor na fase inicial e, ao contrário da inflamação gengival, não se resolve sozinho. Mas pode ser travado, e a diferença entre agir agora ou daqui a cinco anos é considerável.


O que é a recessão gengival


A recessão gengival é a migração da margem da gengiva na direção da raiz do dente, deixando exposta uma superfície radicular que em condições normais estaria protegida. Ao contrário do esmalte, que cobre a coroa, a raiz é revestida por cimento, um tecido mais fino e bastante menos resistente ao desgaste e ao ataque ácido.

 

Daí que a recessão não seja apenas uma questão de aparência. A zona exposta é estruturalmente mais frágil do que a que estava à vista antes.


Como saber se tem gengiva retraída


Os sinais mais comuns são a sensação de dentes mais compridos, o aparecimento de uma zona amarelada junto à margem da gengiva (a cor natural da raiz, mais escura do que o esmalte), sensibilidade ao frio e a perceção de um degrau ao passar a unha ou a língua na transição entre a coroa e a raiz.

 

Em muitos casos, a recessão é assimétrica: nota-se num ou dois dentes, tipicamente caninos e pré-molares, e não em toda a arcada. Esse padrão localizado costuma ser informativo quanto à causa.


Principais causas


Escovagem traumática


É a causa mais frequente em pessoas com boa higiene oral, o que soa contraditório mas não é. Escovar com força excessiva, com escova de cerdas duras ou com movimentos horizontais de vaivém desgasta mecanicamente a gengiva ao longo dos anos.

 

Há um sinal que denuncia esta causa quase sempre: a recessão é mais acentuada do lado oposto à mão dominante. Em destros, os dentes do lado esquerdo costumam estar mais afetados, porque é o lado onde a escova é aplicada com mais pressão e menos controlo. Quando esse padrão aparece, a origem raramente é outra.


Doença periodontal


A periodontite destrói o osso e o tecido de suporte, e a gengiva acompanha essa perda. Aqui a recessão é uma consequência da doença, e não faz sentido tratá-la sem primeiro controlar a inflamação que a está a causar. Dedicámos um artigo do blogue à periodontite, com os sinais que permitem identificá-la antes de haver perda significativa.


Bruxismo e sobrecarga oclusal


Forças excessivas e repetidas sobre um dente, seja por ranger os dentes durante a noite, seja por um contacto prematuro que concentra a carga num ponto, podem contribuir para a recessão da gengiva nessa zona. É frequente encontrar, nesses dentes, uma lesão em cunha junto ao colo, associada à combinação de sobrecarga e escovagem.

 

Quando existe suspeita de envolvimento da articulação temporomandibular associada ao bruxismo, o diagnóstico deve incluir sempre uma tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT), que permite avaliar a articulação e as estruturas ósseas com rigor. Escrevemos noutro artigo sobre o hábito de ranger os dentes, as suas causas e o que fazer.


Posição do dente na arcada


Dentes projetados para fora do arco, ou muito vestibularizados, têm menos osso a cobri-los pela face externa. Nalguns casos, essa lâmina óssea é fina ou inexistente, e a gengiva que assenta sobre ela fica sem suporte adequado.

 

É por isso que o apinhamento e as más posições dentárias são fatores de risco: não pela sobreposição em si, mas pela posição desfavorável de determinados dentes em relação ao osso disponível.


Biótipo gengival e fatores anatómicos


Há pessoas com gengiva naturalmente mais fina e translúcida, um biótipo que apresenta maior tendência para recessão perante os mesmos fatores que noutra pessoa não teriam consequência. Freios labiais com inserção muito próxima da margem gengival também exercem tração e podem contribuir.


Tabaco e piercings orais


O tabaco compromete a vascularização e a capacidade de cicatrização dos tecidos gengivais. Os piercings labiais e linguais provocam trauma mecânico repetido numa zona muito localizada, e a recessão associada costuma ser bastante evidente no dente diretamente em contacto.


Consequências


Sensibilidade dentária


É a queixa que mais frequentemente traz o paciente à consulta. A raiz exposta tem túbulos dentinários que comunicam com o interior do dente, e estímulos como frio, calor, doces ou até o ar podem provocar uma dor breve e aguda.


Cárie radicular


A superfície radicular desmineraliza a um pH mais elevado do que o esmalte, o que significa, na prática, que é bastante mais vulnerável à cárie. A cárie radicular progride depressa e é tecnicamente mais difícil de restaurar, sobretudo quando se estende para baixo da margem gengival.


Impacto estético


Quando afeta a zona anterior, a recessão altera a proporção visível dos dentes e pode expor triângulos escuros entre eles. É um motivo legítimo de procura de tratamento, ainda que raramente seja o mais urgente do ponto de vista clínico.


A gengiva volta a crescer sozinha?


Não. O tecido gengival perdido não se regenera espontaneamente, e nenhum produto de aplicação tópica, pasta dentífrica ou gel o faz crescer novamente.

 

Vale a pena ser claro quanto a isto, porque circula muita informação em sentido contrário. O que é possível fazer é travar a progressão, que na maioria dos casos é o objetivo realista e suficiente, e, em situações selecionadas, recobrir cirurgicamente a raiz exposta.


Como travar a progressão


Corrigir a técnica de escovagem


Escova de cerdas macias, sempre. Pressão ligeira, o suficiente para as cerdas contactarem a gengiva sem a dobrar. Movimentos suaves e circulares, ou da gengiva para o dente, nunca em vaivém horizontal.

 

Quem usa escova elétrica deve deixá-la trabalhar sem aplicar pressão adicional, o que é precisamente o erro mais comum entre quem transita da escova manual. Vários modelos têm sensor de pressão, e vale a pena usá-lo.


Tratar a doença gengival subjacente


Quando há inflamação, destartarização e tratamento periodontal, seguidos de consultas de manutenção com a periodicidade definida em consulta. Sem este passo, qualquer outra medida tem efeito limitado.


Controlar o bruxismo


Quando o desgaste e a sobrecarga estão presentes, a goteira de proteção noturna reduz o impacto das forças exercidas durante o sono. Já explicámos noutro artigo do blogue o que é a goteira dentária e em que situações é indicada.


Corrigir a posição dos dentes


O tratamento ortodôntico pode reposicionar dentes projetados para fora do arco, colocando-os numa posição com melhor suporte ósseo. É uma abordagem que atua sobre a causa e não apenas sobre a consequência.

 

Convém, ainda assim, uma nota de rigor: a ortodontia mal planeada em pacientes com biótipo gengival fino pode agravar a recessão em vez de a melhorar. Por isso a avaliação prévia do suporte ósseo e da espessura gengival é determinante antes de iniciar qualquer movimento dentário, e é uma das razões pelas quais o planeamento ortodôntico em pacientes com recessão exige avaliação detalhada.


Dessensibilizantes para o sintoma


Pastas dentífricas para dentes sensíveis e vernizes aplicados em consultório ajudam a controlar a sensibilidade. Atuam sobre o sintoma, não sobre a causa, e devem ser entendidos como complemento.


Quando é indicada cirurgia


O enxerto gengival está indicado sobretudo quando existe sensibilidade que não responde a medidas conservadoras, quando a recessão progride apesar do controlo dos fatores de risco, quando resta pouca gengiva aderida a proteger o dente, ou quando o impacto estético é significativo para o paciente.

 

A técnica utilizada depende do caso, da quantidade de tecido disponível e do número de dentes envolvidos. O resultado de recobrimento varia consoante a extensão da recessão e a quantidade de osso interproximal remanescente, sendo geralmente mais previsível nas recessões que não envolvem perda óssea entre os dentes.

 

Antes de qualquer intervenção deste tipo, a causa tem de estar controlada. Operar uma recessão sem corrigir a escovagem traumática ou sem tratar a periodontite que a provocou significa, na prática, repetir o problema.


Quando procurar avaliação


Se notou que os dentes parecem mais compridos, se sente sensibilidade ao frio numa zona específica ou se identifica um degrau junto à margem da gengiva, vale a pena marcar uma consulta de avaliação.

 

Quanto mais cedo se identifica a causa, mais simples é a intervenção necessária. Numa fase inicial, corrigir a técnica de escovagem e controlar os fatores de risco chega, muitas vezes, para estabilizar a situação sem qualquer tratamento adicional.



 

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