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Gengivite: causas, sintomas e como tratar

11 de set.
6 min de leitura

Atualizado: há 3 dias


Um pouco de sangue no lavatório depois de escovar os dentes. É este o sinal que a maioria das pessoas ignora durante meses, muitas vezes anos, antes de perceber que existe um problema. A gengivite é a doença gengival mais comum e, provavelmente, a mais desvalorizada. Também é a única fase da doença das gengivas que ainda se consegue reverter por completo, o que torna o reconhecimento precoce tão importante.


O que é a gengivite


A gengivite é a inflamação da gengiva provocada pela acumulação de placa bacteriana junto ao rebordo gengival. Afeta apenas os tecidos superficiais, sem envolver ainda o osso nem o ligamento que sustentam o dente. Por isso é reversível: com a remoção da causa e uma higiene oral adequada, a gengiva volta ao estado saudável.


 

É esta a diferença que define tudo o resto. Enquanto a inflamação se mantém à superfície, não há perda de suporte. A partir do momento em que atinge o osso, deixa de haver retorno completo.


Causas mais comuns


Placa bacteriana


A placa bacteriana é uma película que se forma continuamente sobre os dentes a partir das bactérias presentes na boca. Quando não é removida diariamente, acumula-se junto à linha da gengiva e desencadeia uma resposta inflamatória nos tecidos. Não é preciso muito tempo, em poucos dias sem escovagem adequada numa determinada zona, já é possível observar sinais de inflamação.


Tártaro


Quando a placa permanece nos dentes, mineraliza e transforma-se em tártaro, uma superfície dura e rugosa que já não sai com a escova. O tártaro funciona como uma plataforma que facilita a acumulação de nova placa e torna a higiene diária progressivamente menos eficaz. A partir daqui, a escovagem sozinha deixa de resolver, sendo necessária destartarização em consultório. Já explicámos noutro artigo do blogue o que causa o tártaro nos dentes e como preveni-lo.


Escovagem insuficiente ou mal-executada


Escovar duas vezes por dia não garante, por si só, gengivas saudáveis. O que faz a diferença é onde a escova chega. As zonas mais frequentemente esquecidas são a face interna dos dentes inferiores, a zona junto aos molares e, sobretudo, os espaços entre os dentes, onde a escova não entra. É aí que a gengivite começa na maior parte dos casos, e é também por isso que o fio dentário ou o escovilhão interdentário não são acessórios opcionais.


Alterações hormonais


A gravidez, a puberdade e a toma de contracetivos orais alteram a resposta dos tecidos gengivais à placa bacteriana. A mesma quantidade de placa que numa fase da vida não causaria sintomas pode, nestes períodos, provocar inflamação evidente. A gengivite gravídica é particularmente frequente, sobretudo a partir do segundo trimestre.


Tabaco


O tabaco tem aqui um efeito enganador. Reduz o aporte sanguíneo às gengivas, o que faz com que sangrem menos, mesmo quando a inflamação existe e está ativa. O resultado é que muitos fumadores só percebem o problema numa fase já avançada, precisamente porque o sinal de alarme mais óbvio foi suprimido.


Apinhamento e dentes mal posicionados


Dentes sobrepostos criam zonas de difícil acesso à escova e ao fio dentário. A placa acumula-se nesses recantos e a inflamação instala-se com muito mais facilidade do que numa arcada bem alinhada. É uma das razões pelas quais o apinhamento dentário tem consequências que vão bem para lá da estética, como explicámos no artigo dedicado a este tema.


Sintomas: como reconhecer a gengivite


Sangramento ao escovar ou ao usar fio dentário


É o sintoma mais frequente e o mais desvalorizado. Existe a ideia de que a gengiva sangra porque se escovou com demasiada força, e por isso muitas pessoas reagem escovando aquela zona com mais cuidado, ou deixando mesmo de a escovar. Isso agrava o quadro. Gengiva saudável não sangra durante a escovagem normal.


Gengivas vermelhas, inchadas ou brilhantes


A gengiva saudável tem uma cor rosa pálida, é firme ao toque e acompanha o contorno do dente de forma justa. Na gengivite, ganha um tom mais avermelhado, aumenta de volume e adquire um aspeto liso e brilhante, perdendo o pontilhado característico da superfície.


Sensibilidade e desconforto


Nem sempre há dor. Quando existe, tende a ser um desconforto difuso ao escovar ou ao mastigar alimentos mais duros, e não uma dor localizada e intensa. A ausência de dor é, aliás, um dos motivos pelos quais a gengivite passa despercebida durante tanto tempo.


Mau hálito persistente


As bactérias responsáveis pela inflamação gengival produzem compostos com odor desagradável. Quando o mau hálito se mantém apesar de uma higiene oral cuidada, a origem está frequentemente nas gengivas e não no estômago, como muitas vezes se assume.

 

Gengivite ou periodontite: qual é a diferença


A gengivite afeta apenas a gengiva e é reversível. A periodontite envolve já o ligamento periodontal e o osso alveolar, e a perda de suporte que provoca é, em grande parte, definitiva.

 

A transição entre as duas não é automática nem acontece em todas as pessoas. Nem toda a gengivite evolui para periodontite, mas praticamente toda a periodontite começou por ser uma gengivite não tratada. A suscetibilidade individual, a genética, o tabagismo e doenças como a diabetes influenciam essa progressão. Escrevemos um artigo dedicado à periodontite, onde detalhamos os sinais que distinguem a fase avançada da inicial.

 

O que interessa reter é o momento em que se está a agir. Tratar na fase de gengivite significa recuperar tecido saudável. Tratar na fase de periodontite significa travar uma perda que já ocorreu.


Gengivite na gravidez


A gengivite gravídica afeta uma parte significativa das grávidas e resulta da alteração hormonal característica deste período, que amplifica a resposta inflamatória à placa bacteriana. Costuma ser mais evidente entre o segundo e o oitavo mês.


 

Não é motivo para adiar cuidados. Pelo contrário: as consultas de higiene oral durante a gravidez são seguras e recomendadas, e o controlo da inflamação gengival neste período tem sido associado a melhores desfechos de saúde materna. A grávida deve informar o dentista do tempo de gestação para que o plano de tratamento seja ajustado.


Gengivite em crianças e adolescentes


É mais comum do que se pensa, sobretudo na adolescência, quando as alterações hormonais coincidem com uma fase de menor rigor na higiene oral. Em adolescentes com aparelho fixo, o risco aumenta, porque os brackets e os fios criam múltiplas superfícies de retenção de placa.

 

Nestes casos, a técnica de escovagem tem de ser adaptada. Já abordámos em detalhe, noutro artigo do blogue, como escovar corretamente os dentes com aparelho, incluindo o uso de escovilhão e de escova ortodôntica.


Como se trata a gengivite


Destartarização


O tratamento começa pela remoção profissional da placa e do tártaro, acima e ao nível da linha da gengiva. É um procedimento realizado em consultório e, na gengivite, costuma bastar uma sessão. Nos dias seguintes é normal que a gengiva ainda sangre um pouco e esteja sensível, à medida que a inflamação regride.


Correção da técnica em casa


A destartarização remove o que já está instalado. Não impede que volte. A parte que determina o resultado a longo prazo é o que se faz em casa todos os dias: escovagem com escova de cerdas macias em movimentos suaves na direção da gengiva para o dente, duas vezes por dia, e limpeza interdentária diária com fio ou escovilhão, consoante o espaço disponível entre os dentes.

 

O escovilhão é frequentemente mais eficaz do que o fio em espaços interdentários mais amplos, e a escolha do calibre certo deve ser feita com orientação do dentista ou do higienista.


Tratar o que está por trás


Quando a gengivite é recorrente, vale a pena procurar a causa a montante. Apinhamento acentuado, restaurações com excesso de material junto à gengiva, respiração oral ou boca seca crónica são fatores que mantêm a inflamação ativa apesar de uma higiene cuidada. Nestes casos, resolver a causa é o que evita a repetição do problema.


Quanto tempo demora a gengivite a passar


Com a placa e o tártaro removidos e uma higiene diária adequada, os sinais inflamatórios costumam melhorar de forma visível em cerca de uma a duas semanas. A resolução completa pode demorar algumas semanas, dependendo da extensão inicial e da resposta individual.

 

Se ao fim de duas a três semanas o sangramento se mantiver sem alterações, há motivo para reavaliação. Pode indicar que existe tártaro subgengival não removido, que a técnica de higiene não está a chegar às zonas afetadas, ou que a doença já progrediu para além da gengiva.


Como prevenir


A prevenção da gengivite não tem grande mistério, mas depende de constância mais do que de intensidade. Escovagem duas vezes por dia com pasta fluoretada, limpeza interdentária diária e consultas de higiene oral com a periodicidade indicada pelo dentista, habitualmente uma a duas vezes por ano em pessoas sem histórico de doença gengival.

 

A alimentação também conta. Uma dieta com aporte adequado de vitamina C e pobre em açúcares de absorção rápida ajuda a manter os tecidos gengivais mais resistentes. Reunimos noutro artigo do blogue os alimentos que ajudam a manter as gengivas saudáveis.


Quando marcar consulta


Se as gengivas sangram com regularidade ao escovar, estão inchadas ou mudaram de cor, o mais indicado é marcar uma consulta de avaliação. A gengivite tratada a tempo resolve-se sem sequelas, e a diferença entre agir agora ou daqui a dois anos pode ser a diferença entre uma destartarização e um tratamento periodontal prolongado.

 

Numa consulta de avaliação é possível perceber em que fase está a inflamação, se existe já perda de suporte e que ajustes à rotina de higiene fazem sentido no seu caso concreto.



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