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Dor de dentes: causas mais comuns e quando ir ao dentista

há 7 minutos
7 min de leitura

A dor de dentes não é um diagnóstico. É um sintoma, e pode ter origem no dente, na gengiva, no osso, na articulação da mandíbula ou até fora da boca. O tipo de dor, o que a desencadeia e há quanto tempo dura dizem bastante sobre o que está por trás.

 

Este artigo serve para o ajudar a perceber o que a sua dor pode estar a indicar e, sobretudo, com que urgência deve procurar avaliação. Não substitui uma consulta, porque o mesmo padrão de dor pode ter causas diferentes, e algumas só se distinguem com observação e radiografia.


A mesma dor, causas muito diferentes


Um dente que dói ao frio durante dois segundos e um dente que dói de forma latejante e contínua estão a comunicar coisas distintas. No primeiro caso é provável que a polpa esteja inflamada, mas viável. No segundo, essa inflamação pode já ser irreversível.

 

A distinção interessa porque muda o tratamento e a janela de tempo em que ainda se resolve o problema de forma simples.

 

Há um ponto que vale a pena estabelecer desde já: a dor de dentes que desaparece sozinha nem sempre é boa notícia. Quando um dente com dor intensa deixa subitamente de doer durante alguns dias, isso pode significar que a polpa deixou de estar viva. O problema não se resolveu, apenas deixou de haver nervo para o sinalizar.


Causas mais comuns de dor de dentes


Cárie


A causa mais frequente. Enquanto a lesão se mantém no esmalte não costuma provocar sintomas. Quando atinge a dentina, aparece a sensibilidade ao frio, ao doce ou ao ácido, geralmente breve e localizada num dente específico.

 

À medida que se aproxima da polpa, a dor muda de carácter: torna-se mais duradoura, mais intensa e menos previsível. Explicámos noutro artigo como se forma a cárie dentária e em que fase ainda é possível travá-la sem restauração.


Inflamação da polpa


A polpa é o tecido no interior do dente, com nervo e vasos sanguíneos. Quando inflama, seja por cárie profunda, por trauma ou por uma restauração muito próxima do nervo, o espaço rígido onde está alojada não permite que inche.

 

Daí a intensidade. A pulpite irreversível é uma dor tipicamente espontânea, latejante, que pode irradiar para o ouvido ou para a têmpora e que costuma agravar quando a pessoa se deita. É uma das dores que mais frequentemente leva alguém ao dentista de urgência.


Abcesso dentário


Quando a infeção sai do dente e atinge o osso à volta da raiz, forma-se uma acumulação de pus. A dor é constante, o dente fica dorido ao toque e à mastigação, e é comum a sensação de que ficou mais alto do que os dentes vizinhos.

 

Pode surgir inchaço na gengiva ou na face, sabor desagradável se houver drenagem, e em alguns casos febre e mal-estar geral. O abcesso é a situação em que a demora tem consequências mais sérias, sobretudo quando o inchaço progride para as regiões do pescoço ou em direção ao olho.


Gengivite e periodontite


Nem toda a dor da boca vem do dente. A inflamação gengival provoca desconforto difuso, sensibilidade ao escovar e sangramento, mais do que dor localizada e intensa.

 

Na periodontite, com perda de suporte ósseo, podem surgir abcessos periodontais e dor à mastigação em dentes com mobilidade. Escrevemos artigos dedicados à gengivite e à periodontite, com os sinais que distinguem uma da outra.


Retração gengival e raiz exposta


A raiz não tem esmalte. Quando a gengiva recua e a expõe, os estímulos térmicos chegam com muito mais facilidade ao interior do dente.

 

A dor é curta, aguda, desencadeada pelo frio, pelo ar ou pelo escovar, e localiza-se junto à margem da gengiva. Abordámos as causas e a progressão deste problema no artigo sobre gengiva retraída.


Dente fissurado ou restauração fraturada


Uma fissura no dente pode dar uma dor muito característica: uma pontada aguda no momento em que se liberta a mordida, e não durante a força propriamente dita. É frequentemente intermitente, difícil de localizar e pode manter-se durante meses sem diagnóstico.

 

Restaurações antigas que fraturam ou se descolam expõem a dentina e provocam sensibilidade súbita num dente que estava assintomático.


Siso em erupção ou impactado


Um siso que tenta irromper sem espaço suficiente provoca dor na região posterior da mandíbula, muitas vezes com inflamação do capuz de gengiva que o cobre, dificuldade em abrir a boca e dor irradiada para o ouvido.

 

A questão de fundo não é apenas o episódio agudo. Os sisos raramente encontram espaço e função numa arcada, e mantê-los acarreta risco de infeções repetidas, de cárie no molar da frente e de pressão sobre os dentes vizinhos. Tratámos este assunto em detalhe no artigo sobre quando extrair o dente do siso.


Bruxismo e sobrecarga oclusal


Apertar ou ranger os dentes sobrecarrega o ligamento que suporta cada dente. O resultado costuma ser uma dor difusa, generalizada, sentida sobretudo ao acordar, e que se acompanha de cansaço nos músculos da face.

 

É uma dor que muda de dente de dia para dia, o que a distingue da dor de origem pulpar. Noutro artigo, escrevemos sobre as causas e consequências de ranger os dentes e sobre em que casos o aparelho pode ajudar no bruxismo.


Quando a dor não vem do dente


Nem toda a dor localizada nos dentes tem origem dentária.

 

A disfunção temporomandibular provoca dor na articulação, nos músculos mastigatórios e, frequentemente, na região dos molares superiores, com ruídos ao abrir a boca e cansaço ao mastigar. O diagnóstico exige avaliação clínica dirigida e inclui sempre CBCT, que permite observar a estrutura óssea da articulação com o detalhe que uma radiografia convencional não permite. Abordámos os sintomas e o tratamento no artigo sobre DTM.

 

A sinusite maxilar é outra causa comum de confusão: as raízes dos molares superiores são vizinhas do seio maxilar, e a inflamação deste provoca dor em vários dentes ao mesmo tempo, que agrava ao baixar a cabeça e que surge associada a congestão nasal.

 

Existem ainda dores de origem neurológica, como a nevralgia do trigémeo, com um padrão em choque elétrico muito distinto de tudo o resto.


O que o tipo de dor sugere



Este quadro é uma orientação, não um diagnóstico. Serve para perceber com que urgência agir.

 

Padrão de dor

Causas mais prováveis

Urgência

Curta ao frio ou ao doce, passa em segundos.

Cárie inicial, raiz exposta, erosão do esmalte.

Consulta nas próximas semanas.

Ao calor, prolongada. Alivia com o frio.

Pulpite irreversível.

Consulta com prioridade.

Ao mastigar ou ao morder, num dente específico.

Fissura, abcesso, restauração alta.

Consulta com prioridade.

Pontada ao libertar a mordida.

Dente fissurado.

Consulta com prioridade.

Latejante, espontânea, agrava ao deitar.

Pulpite irreversível.

Consulta urgente.

Constante, com inchaço, dente dorido ao toque.

Abcesso.

Consulta urgente.

Difusa, generalizada, pior ao acordar.

Bruxismo, sobrecarga oclusal.

Consulta nas próximas semanas.

Vários dentes superiores ao mesmo tempo, com congestão nasal.

Sinusite.

Avaliação médica e dentária.

Na região posterior, com dificuldade em abrir a boca.

Siso em erupção, pericoronarite.

Consulta com prioridade.

 

A dor ao calor que alivia com frio é a que mais frequentemente surpreende, e é uma das mais indicativas de que a polpa está comprometida.


Sinais de alerta: quando ir ao dentista com urgência


Há situações em que esperar pela próxima consulta disponível não é adequado.

 

Inchaço da face, do pescoço ou do pavimento da boca. Febre associada a dor dentária. Dificuldade em engolir, em respirar ou em abrir a boca. Dor intensa que não cede à medicação analgésica habitual. Trauma com fratura ou deslocamento de um dente.

 

O inchaço que progride é o sinal mais importante desta lista. Uma infeção dentária que se estende aos espaços do pescoço deixa de ser um problema dentário e passa a ser uma urgência hospitalar. É pouco frequente, mas acontece, e a evolução pode ser rápida.


O que fazer enquanto espera pela consulta


O objetivo desta fase é controlar sintomas sem mascarar o problema nem agravá-lo.

 

Um analgésico de uso comum, respeitando as indicações da embalagem e o que já estiver prescrito para outras situações, é razoável. Aplicar frio no exterior da face pode ajudar quando há inflamação. Manter a cabeça elevada durante a noite reduz a dor latejante em alguns casos. Continuar a higiene oral na zona, com cuidado, é preferível a deixar de escovar por receio de doer.

 

Há três coisas a evitar, e todas elas ainda aparecem com regularidade nas consultas. A primeira é colocar aspirina ou comprimidos diretamente sobre a gengiva, prática que provoca queimadura química do tecido. A segunda é aplicar calor sobre uma zona inchada, o que favorece a progressão da infeção. A terceira é iniciar antibióticos que sobraram de um tratamento anterior: o antibiótico não resolve a causa dentária, e a toma sem indicação atrasa o diagnóstico e contribui para resistências.


Como se trata: o que esperar da consulta


A primeira parte da consulta é perceber de onde vem a dor. Isso implica observação, testes de sensibilidade e percussão e, habitualmente, radiografia, porque grande parte do que interessa avaliar está dentro do dente ou no osso à volta da raiz.

 

A partir daí, o tratamento acompanha a causa. Uma cárie sem envolvimento pulpar resolve-se com restauração. Uma pulpite irreversível ou uma necrose implicam tratamento endodôntico. Um abcesso exige drenagem e resolução da origem da infeção, com antibiótico apenas quando existe indicação clínica para o associar. Uma dor de origem gengival trata-se com destartarização. Uma dor muscular ou articular segue outro caminho, que passa pela avaliação da oclusão e, quando indicado, pôr goteira.

 

Aliviar a dor sem tratar a origem é uma solução temporária, e o intervalo até ao regresso do sintoma costuma ser curto.


Como prevenir


A maior parte das dores de dentes tem origem em processos que decorreram em silêncio durante meses ou anos. A cárie não dói na fase em que é fácil de tratar. A gengivite não dói praticamente nunca. A fissura instala-se sem aviso.

 

Escovagem duas vezes por dia com pasta fluoretada, limpeza interdentária diária e consultas periódicas de avaliação e destartarização continuam a ser o que evita a maioria destes quadros. O controlo do tártaro tem aqui um peso próprio, pelas razões que explicámos no artigo sobre o que causa o tártaro nos dentes.

 

Quem tem bruxismo diagnosticado beneficia de proteção noturna. E quem tem restaurações antigas ganha em fazer avaliação regular, porque a cárie que se desenvolve por baixo delas não é visível a olho nu.


Quando marcar consulta


Se tem uma dor que já dura há mais de um ou dois dias, se ela regressa sempre no mesmo dente, ou se está a tomar analgésicos com regularidade para conseguir mastigar, faz sentido marcar uma consulta de avaliação.

 

A dor de dentes tende a ser cíclica, e é frequente que passe sozinha ao fim de alguns dias. Isso não significa que a causa se tenha resolvido, e o intervalo entre o alívio e o episódio seguinte é habitualmente a melhor altura para tratar o problema de forma simples.




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